PALAVRAS NÃO TITULADAS
(Em jeito de despedida)
Num gesto de despedida
Neste discurso não rotulado
Deixo este testemunho
Na esperança que alguém o ouça
Não vejo vontade de mudança
Para a pestilenta realidade que nos rodeia
Cortada pelas cáusticas querelas
Das fardas-máscaras de todos os dias
Nada muda na sua epidémica essência
Na estrutura confusa dos dias gravam-se impressões
Na esperança que alguém as veja
São palavras, são gestos, são agrados, são frases
São amores, são ódios, são também confusões
Restos curiosos de pequenas coisas
Bocados perdidos de inglórias lutas
Não me revejo aqui nesta confusão
Embora não maldiga o dia em que nasci
Apenas os segredos são meus confidentes
E... os dias que amo doentiamente
À espera que a noite chegue
Para que novo dia aconteça
Sabendo que nada irá acontecer
Realmente as coisas que valem a pena
Estão a dois passos de nós, camufladas
Troçam desta furiosa vontade sobrevivente
Dos tempos dos ternos idealismos
Que nos fizeram homens e mulheres
Caiem vertiginosamente os dias
Já não há lugar para mais ilusões
Nem tão pouco é conveniente tê-las
Metidos que estamos nesta farsa palaciana
Sejamos criminosos
Matemos o tempo da conveniência
Com as armas da convicção
É preciso regar os nossos dias
Com o vinho da esperança
E aliviar o sofrimento
Tomando comprimidos de fé
E nas sessões mais sábias da nossa praça
Reclamemos o direito à nossa indignação
Pelos dias que correm sem nada
Pelas horas que passam vazias
Pelos títulos que já não espantam
Nem nada valem
Por essa carga funesta que a morte tem
Apelem à imaginação
Não viagem nessa caravana de teatro
Que de repente parou à vossa porta
Prometendo-vos searas amenas sem pragas
Mares sem tempestades, rios sem morte
Não deixem que vos vitimem
Não deixem que vos roubem
A dignidade de serem quem são
Não matem
Não morram
Mas vivam
Não matem porque nesse dia
A vossa vítima morreu
Não morram porque nesse dia
A vossa morte também partiu
Mas vivam nesse dia porque ele vai acabar
E outro igual não virá
Oh!... Gente sem medo do futuro
Será que irá ser sempre assim
Será que será?
Ou o engano é tal
Que já nem isso importa?!
José dos Santos (Dos Santos Pintor)
Dez. 2002

2 comentários:
Não tem sido assim... pois não?
Um abraço!
Claro que não. às vezes são desabafos, reflexos de instantes e situações pontuais. Mas onde isto aconteceu as coisas não estão muito doferentes.
José dos Santos
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